Na loja "DrogArte", Ana Ferreira, de 54 anos, desenvolve algumas peças de arte para venda, além de vender as obras de outros artistas do bairro. A artista conhecida por todos no Largo dos Trigueiros, perto do Rossio, em Lisboa, faz ainda hoje contas em escudos quando quer entender se algo é caro ou barato. Após 24 anos da entrada do euro, continua a converter mentalmente muitos dos preços, sobretudo quando estão em causa despesas maiores. Casas, carros ou rendas são alguns dos exemplos que continuam a ser comparados por Ana a uma moeda que desapareceu oficialmente em 2002, mas que não chegou a desaparecer da memória de muitos.
Ana Ferreira viveu a mudança de forma particular. Nascida e criada em França, onde estudou Turismo e Aproveitamento do Território, já ouvia falar do euro muito antes dele chegar a Portugal. Aos 22 anos, mudou-se sozinha para Lisboa e acompanhou a entrada da nova moeda na capital, mas habituar-se aos novos valores esteve longe de ser imediato. A artista recorda que o euro não lhe dizia nada, então "fazia sempre a conversão para escudos".
Na altura do escudo, mil escudos, o equivalente a cinco euros, chegavam para várias despesas do dia a dia: "Lembro-me de que com mil escudos eu tomava o pequeno-almoço, comprava o meu maço de tabaco e almoçava fora. Hoje, com cinco euros, compro o meu maço de tabaco e pronto… perdemos poder de compra e até poder de negociação", afirma.
A entrada do euro em Portugal aconteceu no dia 1 de janeiro de 2002, depois de já existir desde 1999 como moeda utilizada para pagamentos eletrónicos, segundo o Eurocid, o portal oficial de informação europeu. Durante dois meses, escudos e euros circularam ao mesmo tempo. Apenas a partir do dia 1 de março de 2002 o euro passou a ser a única moeda que podia ser usada oficialmente em Portugal, segundo informação do Banco Central Europeu e do Banco de Portugal.
A mudança parecia simples: um euro correspondia a 200,482 escudos. Porém, na prática, a adaptação revelou-se muito mais lenta e confusa para alguns. Numa altura em que ainda não existiam aplicações no telemóvel para converter valores, as contas eram feitas de cabeça ou na calculadora. Ana lembra que muitas pessoas faziam contas de cabeça para terem uma noção aproximada do preço real das coisas. "Era dividido por cinco ou multiplicado por cinco. Às vezes era de cabeça", recorda. Foi também nessa altura que começou a crescer a sensação de que o dinheiro rendia menos e de que muitos preços tinham aumentado rapidamente.
Nós fomos roubados muito suavemente e subtilmente ao início e depois foi descaradamente.
Ana Ferreira, 54 anos — comerciante, Largo dos Trigueiros, LisboaPara muitos, o impacto do euro não começou nas grandes compras, mas em gestos banais: comprar tabaco, comprar pão ou fazer compras no supermercado.
A transição que pareceu simples
Da moeda escritural, à moeda física: os momentos-chave
Para Elisabete Neixa, de 47 anos, a sensação de algo diferente sentiu-se no preço do café. Num banco de madeira à frente da loja de arte de Ana, Elisabete recorda que, no seu dia a dia, um café custava à volta de 50 escudos, antes da entrada do euro, e passou para 50 cêntimos: "Se formos a ver bem, a conversão correta seriam 100 escudos, e isso era o dobro do valor. Mas assim como um café, foi em muitas outras coisas."
Segundo uma notícia do Diário de Notícias, publicada a 1 de janeiro de 2017, antes da entrada do euro era possível comprar uma sandes por 50 cêntimos, almoçar fora por dois contos (cerca de 10 euros) e comprar um bilhete de cinema por 500 escudos (2,49€). Elisabete considera que muitas pessoas demoraram algum tempo a perceber verdadeiramente aquilo que estava a acontecer porque os números pareciam mais baixos. No entanto, no final do mês, as contas fizeram-se sentir na carteira dos portugueses.
Preços do quotidiano em Janeiro de 2002
Fonte: e-konomista.pt / Diário de Notícias, 1 Jan 2017
As pessoas no início foram um bocadinho enganadas. Achavam que tinha sido uma melhoria mas, ao fim do mês, as coisas não chegavam porque aumentaram para o dobro.
Elisabete Neixa, 47 anos, LisboaOs dados oficiais ajudam a contextualizar esta perceção. Segundo dados da PORDATA, no ano da entrada do euro, em 2002, a inflação situou-se nos 3,6%, mas alguns setores registaram aumentos bastante superiores à média. Os restaurantes e serviços de alojamento subiram 5,7%, os transportes 5,1% e os serviços financeiros quase 10%.
Para Elisabete, o principal problema foi o facto de os salários não terem acompanhado o aumento do custo de vida. "Os salários continuaram. A conversão dos salários não aumentou para o dobro. Foi isso", diz. A própria viveu um episódio que ainda hoje recorda com algum nervosismo. Trabalhava em part-time quando recebeu uma carta das Finanças relacionada com o IRS. Pensou tratar-se de um documento normal, mas quando abriu o envelope percebeu que devia perto de 12 mil euros ao Estado. "Quando vi aquilo, ia-me dando um ataque. Era uma coisa que eu nem recebia por ano", admite. O erro tinha acontecido durante uma conversão entre escudos e euros no preenchimento da declaração. Quando foi às Finanças percebeu rapidamente que este não era um caso isolado: "Disseram-me logo para não me preocupar que o mesmo caso já tinha acontecido a milhares de pessoas."
Elisabete lembra que "os bancos tiveram um papel crucial" na adaptação da população ao euro: "Os funcionários dos bancos ajudaram imenso as pessoas e explicaram tudo!"
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Os bancos na linha da frente
Esta mudança transformou-se numa corrida contra o tempo para os bancos. Na altura, com 38 anos, Lurdes Almeida era operadora de caixa e tesoureira no Crédito Agrícola do Sátão, um concelho no distrito de Viseu. Ela conta que a preparação antes do dia 1 de janeiro foi muito simples: "No fim do ano tínhamos coleções das novas moedas, colocadas numa caixinha muito bonita para as pessoas irem conhecendo o dinheiro. Havia quem desse como prenda no Natal."
Segundo Lurdes Almeida, os bancos receberam muitas pessoas que tinham dinheiro guardado em casa e, por isso, "naquele período muitos bancários trabalhavam todos os dias até às tantas".
Trocar o dinheiro era um processo extremamente trabalhoso e criava muita confusão. Os clientes continuavam a pensar em contos e chegavam ao balcão a pedir valores redondos, mas os funcionários tinham de fazer a conversão exata para euros e cêntimos. "No início não foi muito fácil", admite Lurdes.
Se alguém quisesse trocar 20 contos, tinha de dar o equivalente exato em euros e cêntimos. Era muito trabalhoso e, às vezes, chegávamos ao final do dia e reparávamos que tínhamos perdido dinheiro.
Lurdes Almeida, 62 anos — ex-bancária, Crédito Agrícola do SátãoA adaptação revelou-se especialmente difícil para as pessoas mais velhas, sobretudo em zonas rurais. Alguns tinham dificuldade em compreender o valor do euro e de fazer as conversões. Esta falta de informação e a vulnerabilidade de muitos idosos acabaram por dar espaço a burlas: "Houve muitas fraudes. Apareciam pessoas nas aldeias a dizer que vinham por parte do Banco de Portugal trocar o dinheiro e os idosos acreditavam e acabavam por ficar sem nada. Houve mesmo quem chegasse a receber maços de notas que eram apenas fotocópias e jornais", lamenta Lurdes.
Entre muitos dos clientes que apareceram no banco para trocar escudos por euros, Lurdes Almeida recorda-se especialmente de um senhor chamado Aurélio. Tinha grandes quantidades de dinheiro guardadas em casa e começou a levá-las ao banco por causa dos prazos para troca. Lurdes percebeu que o homem demonstrava tristeza sempre que fazia os depósitos e um dia perguntou-lhe o que se passava. O senhor Aurélio acabou por admitir que sentia "estar a perder a identidade" pois, para ele, o dinheiro guardado em casa representava segurança. Ver as poupanças transformadas em números numa conta bancária fazia-o sentir que estava a perder uma referência que o tinha acompanhado durante a vida.
No restaurante, as contas que nunca pararam
No Largo dos Trigueiros, encontramos Cila Fernandes, de 70 anos, a irmã Laurinda Costa, de 74, e Hélia Silva, de 40 anos, nora de Cila. As três são donas do restaurante "O Trigueirinho". Hélia lembra-se da infância e das idas à pastelaria antes da escola.
"A minha mãe dava-me algum dinheiro para comprar uns doces. Costumávamos comprar um saco cheio de gomas, chupas e outras guloseimas… não era preciso muito dinheiro", comenta sorridente. Cila Fernandes, em gesto de concordância, admite que "naquela altura dava para muita coisa, mas hoje 50 cêntimos nem para um café chegam".
As três começaram a calcular quanto custaria hoje, em escudos, um simples pastel de nata. A conta deixou-as impressionadas já que um pastel, atualmente, custa cerca de 1,60€, o que corresponderia a mais de 320 escudos. Laurinda reitera que "a discrepância é realmente bastante grande" quando Cila pergunta se, com a conversão, um pastel de nata valeria o preço hoje pedido.
As comparações entre os preços antigos e os valores atuais surgem constantemente nas memórias. Laurinda Costa recorda-se de pagar "mil e oitocentos escudos de renda", numa altura em que recebia o ordenado mínimo. Convertido diretamente, esse valor corresponde hoje a cerca de 9 euros. Com o preço ajustado à inflação, falamos de 25 euros.
"Antigamente as pessoas tinham menos, mas havia mais facilidade para alugar casas. Hoje é impossível… ninguém tem essa facilidade", refere Cila. Já Laurinda recorda que passou por um congelamento nas rendas, quando alugou casa, e passou vários anos a pagar o mesmo.
Hélia confessa que não teve a mesma sorte: "Em 2020 fui para uma casa onde pagava 650 euros. Hoje, na mesma habitação, estou a pagar 830! Em seis anos, quanto é que a minha renda aumentou?", questiona indignada.
A subida dos preços da habitação começou também a sentir-se nos anos da transição para o euro. De acordo com os dados disponíveis no Diário da República, em 1996 o metro quadrado custava, em vários concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, perto de 103 500 escudos, o equivalente a 516 euros. No entanto, entre 1998 e 2002, Lisboa registou aumentos de 100% em algumas zonas, com as casas a duplicarem de valor em poucos anos.
Uma notícia do Jornal de Negócios, publicada no dia 23 de maio de 2003, refere, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), que "o valor médio da avaliação dos alojamentos localizados em Portugal Continental ascendeu, a 1063 euros por metro quadrado, no último trimestre de 2002".
No decorrer da conversa entre Laurinda e Hélia no restaurante "O Trigueirinho", Hélia questiona Laurinda sobre quanto é que custou a sua casa: "A minha casa custou 65 mil euros e eu ainda tinha cerca de 20 mil euros de parte para fazer as obras" — diz Laurinda, que comprou a sua habitação com 50 anos juntamente com o seu marido em 2004. "Mas hoje em dia não há casas a 65 mil euros. Desde 2004 até agora a discrepância que é… em 22 anos é horrível" — comenta Hélia, ainda indignada.
A moeda que não morreu
Passaram-se 20 anos da entrada da moeda euro em Portugal e muitas pessoas continuam a associar essa mudança a uma alteração profunda na forma como passaram a olhar para o dinheiro. O escudo desapareceu oficialmente das carteiras portuguesas em 2002, mas continua presente na memória daqueles que viveram a transição. Mais de duas décadas depois, há quem continue a converter preços mentalmente ou a comparar rendas, salários e despesas com a antiga moeda nacional.
Há muita gente que ainda não fala em euros — é só escudos. Mesmo passados todos estes anos.
Lurdes Almeida, 62 anos — ex-bancária, Crédito Agrícola do Sátão